RogueNASA

Nos EUA, a resistência organiza-se nas redes sociais

In Artigo, Texto by Mafalda CorreiaLeave a Comment

Nos EUA, as redes sociais tornaram-se num campo de batalha entre a Administração comandada por Trump e as agências governamentais. Os apelos à resistência a ordens injustas e à defesa da verdade propagam-se agora no Twitter e conquistam seguidores a uma velocidade alucinante.

A NASA é a terceira agência federal norte-americana a desafiar Donald Trump nos últimos dias, criando no Twitter uma conta não-oficial que o novo presidente não consegue controlar ou censurar.

O National Park Service (NPS) foi o primeiro a criar uma conta destas, depois de Trump ter obrigado a instituição a apagar tweets que lhe desagradaram. Seguiu-se a Environmental Protection Agency (EPA) e, há dois dias, foi a vez da NASA optar por esta via para garantir que as suas opiniões são ouvidas, mesmo quando contrariam as ideias de Trump.

Em meia dúzia de dias, a conta @AltNatParkSer atraíu 1,23 milhões de seguidores, a @RogueNASA já tem 600 mil e a @ActualEPAFacts quase 150 mil. 

A conta pirata da NASA no Twitter, chamada @RogueNASA conquistou 600 mil seguidores em dois dias. Começou com um tweet que dizia “Não podemos permitir que o Sr. Trump silencie a comunidade científica. Mais do que nunca precisamos de investigação baseada em evidências e revista pelos pares”, acrescentando “é triste que os funcionários do governo tenham de criar contas piratas no Twitter para comunicar simples factos ao público americano”. A conta tem tweetado factos científicos e dados sobre as alterações climáticas que certamente seriam alvo da censura de Trump e retweetado mensagens de apoio de senadores e jornalistas.

Protegidos pelo anonimato, os empregados do NPS, da EPA e da NASA que gerem as contas alternativas no Twitter ficam a salvo de medidas disciplinares. E Donald Trump não pode exigir a desativação das contas, porque não há nesta nenhuma atividade que viole os termos de serviço do Twitter. Por outras palavras, Trump está a provar do seu próprio veneno.

Se não resiste a dar uma espreitadela às contas não oficiais destas instituições no Twitter, siga estes links:

Do ponto de vista da comunicação, esta estratégia de resistência levanta algumas questões que dão que pensar e vão muito além do habitual folclore que enche as redes sociais.

Os pratos da balança

Desde logo, uma mudança no equilíbrio de forças. Cria-se um precedente para que qualquer pessoa tenha o poder de criar uma campanha viral capaz de angariar milhares de seguidores e uma ampla cobertura da imprensa e, desta forma, disputar com as instituições o espaço ocupado pelos seus canais oficiais, rígidos, controlados e geridos por profissionais.

Em vez de reforçarem o controlo sobre as mensagens do NPS, EPA e NASA, as proibições de Trump tiveram o efeito contrário: as contas não oficiais apropriaram-se do capital de confiança das agências governamentais para credibilizar a informação que publicam e estas deixaram de poder controlar o que é dito em seu nome.

Não por acaso, este movimento é amplamente apoiado e ampliado pelos meios de comunicação social, que têm sido um dos alvos preferenciais da hostilidade de Trump nestes primeiros dias de governação.

Uma nova arma política?

Isto leva-nos à questão mais vasta do controlo das mensagens governamentais no ciberespaço. Embora nos sites a extensão .gov seja reservada a entidades oficiais, nas redes sociais essa limitação não existe. Uma conta de uma instituição governamental é tratada exatamente da mesma forma que qualquer outra, incluindo na possibilidade dos gestores destas plataformas apagarem conteúdos que considerem violar as normas do serviço.

Por esta lógica, nada impede que, além dos funcionários descontentes, também os partidos da oposição ou qualquer grupo de interesse possam criar contas paralelas para divulgar a sua própria interpretação de acontecimentos, ações e dados emitidos pelas instituições governamentais. Para o cidadão comum, torna-se difícil perceber quem é quem, uma vez que as contas de resistência também usam símbolos oficiais, e ainda mais difícil confirmar a autenticidade das informações apresentadas nestes canais.

Na verdade, as contas falsas sempre existiram nas redes sociais. Mas, até há pouco tempo, quando o alvo eram instituições, normalmente adotavam um tom satírico ou humorístico que permitia a quem as seguia distingui-las das contas oficiais e dar-lhes a importância devida. Funcionavam mais como uma válvula de escape do que como resistência ativa.

Agora surgem canais com aparência oficial que invocam o nome das instituições e divulgam informação científica que contradiz argumentos e ações do governo. Contando com o efeito viral que certamente acelerará esta tendência, não demorará muito a que toda a estratégia de interação das agências oficiais com os cidadãos através das redes sociais tenha de ser repensada.

E a segurança, senhores?

Esta nova realidade levanta também questões sobre a segurança na internet. Tratando-se de contas não verificadas que são geridas por anónimos, como ter a certeza de que se trata mesmo de funcionários das agências governamentais? E será que os dados que divulgam são mesmo verdadeiros? A era das fake news tem demonstrado que as mentiras podem ter uma aparência verdadeira. E a própria eleição de Trump mostra como os seus efeitos de uma desinformação continuada podem ser desastrosos.

Assustador é também o risco desta estratégia de resistência criada por cientistas e intelectuais não alinhados ser aproveitada por hackers. Em contas não verificadas e abertas a grandes massas de seguidores, encontram um campo fértil para espalhar vírus, softwares maliciosos ou de vigilância em grande escala. E todos sabemos como eles estão atentos às oportunidades.

Marcas (des)protegidas

Por último, uma questão que pode ter impactos relevantes também no universo empresarial: como compatibilizar a crítica social e o direito de resistência contra atos injustos com as leis de proteção das marcas e direitos de autor?

Estas contas têm usado logótipos, símbolos e imagens oficiais que são juridicamente protegidas. Não podemos ser ingénuos ao ponto de pensar que, uma vez estabelecida, a estratégia de resistência emergente contra Trump irá ficar confinada ao domínio da política. Não demorará muito até ser utilizada por trabalhadores de uma qualquer empresa para denunciar injustiças, práticas abusivas ou questões que a empresa preferia manter em segredo.

O uso das marcas para fins de resistência ou oposição poderá pôr em causa todo o trabalho de branding e gestão da reputação na forma como hoje é praticado. É verdade que existem instrumentos jurídicos para sancionar o uso não autorizado de símbolos e imagens, mas todos sabemos que o tempo da justiça dificilmente acompanhará a dinâmica do ciberespaço e o seu poder viral.

Será interessante acompanhar a evolução deste movimento e ver como vai o governo norte-americano reagir. E, também, assistir às mudanças que certamente vão ocorrer na forma de comunicar, muitas das quais acabarão por migrar para o universo das empresas. Quem ganhará a guerra? O caos das redes sociais ou o sistema controlado e fechado das conferências de imprensa e dos sites informativos, mas muito pouco interativos?

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